Cultura

Morre o poeta Thiago de Mello aos 95 anos

Thiago de Mello, Amadeu Thiago de Mello poeta e tradutor brasileiro. morreu nesta sexta-feira, dia 14 de janeiro de 2022, aos 95 anos.

Esse ilustre amazonida, que nasceu em 14 de março de 1926, em Porantim do Bom Jesus, município de Barreirinha, no Baixo Amazonas, era filho do casal Pedro e Maria.

A escritora Zemaria Pinto fez um belo texto poético, quando Thiago de Melo completou 94 anos  com o título: Thiago de Mello, 94 anos de notícias e não notícias. LEIA 

 

Thiago de Mello, 94 anos de notícias e não notícias

Zemaria Pinto

O que dizer de Amadeu Thiago de Mello, que seus leitores não saibam?

Que ele nasceu em Barreirinha, no paraná do Ramos, tributário do Amazonas, em 30 de março de 1926, filho de Pedro e Maria?

Que um dia quis ser médico, estudou até o 5.º ano, mas a poesia não permitiu que ele a abandonasse e nem mesmo dividisse a dedicação a ela?

(Será que vem daí o seu amor pelo trajo branco?)

Que foi preso pela ditadura militar e na cela sombria leu uma frase, ecoando a sua própria voz, escrita por quem lá estivera antes: Faz escuro mas eu canto!?

Que foi exilado pela ditadura militar brasileira e morou no Chile, na França e na Alemanha?

Que no Chile neoliberal do general Pinochet esteve diante de um pelotão de fuzilamento, após o assassinato de Allende?

Que há mais de 40 anos voltou para a floresta, onde construiu casas e poemas em perfeita comunhão com a natureza amazônica?

Que publicou mais de uma dúzia de livros de poesia, além de crônicas e prosa poética, como o belo Arte e ciência de empinar papagaio, que todo menino e menina deviam ler?

Que esses livros foram traduzidos em mais de trinta idiomas, fazendo dele um poeta de reconhecimento universal?

Que generosamente traduziu para o português um sem número de poetas, com destaque ao magnífico Poetas da América de canto castelhano?

Isso tudo e muito mais os seus leitores já sabem.

O que poucos sabem – os que tiveram a graça de prosear com ele, sem medidas de tempo – é que aos 9 anos, Thiago recitava de cor (de coração) o I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, graças ao estímulo das professoras Clotilde Pinheiro e Aurélia Barros, do remoto Grupo Escolar José Paranaguá. De lá para cá, o dizer poemas em voz alta virou brinquedo.

O que quase ninguém sabe é que seu primeiro poema, aos 12 anos, nasceu de uma tragédia – a morte por afogamento do pequeno Anísio, da mesma idade do poeta:

Vi meu amigo morrer,

afundando no perau.

O que vai acontecer?

As incríveis redondilhas brotaram milagrosamente, sem que o menino soubesse ao menos o que era uma redondilha.

E a descoberta do amor, aos 14 anos? Só quem sabe é a Lenize, moradora da Praça da Saudade, que descobriu essa paixão platônica ao ler uma crônica do poeta, muitos anos depois, quando ambos moravam no Rio de Janeiro.

Aos 15 anos, quando, pássaro menino, migrou para o Rio – ele o disse só a mim – Thiago levava consigo três princípios, que o iluminam ainda hoje, mesmo quando nuvens de chumbo ameaçam apagar o sol da pátria amada: “a descoberta de que o homem é capaz de criar a beleza com o poder da criação artística; a descoberta de que o amor é possível; e a certeza de que a amizade é a mais bela forma de amor”.

Então, já que não há o que falar do poeta, falemos de sua poesia.

A obra poética de Thiago de Mello é diversa, original e superlativa.

Quando ele aparece, no inícios dos anos 1950, é saudado por algumas das maiores vozes literárias da época: Alceu de Amoroso Lima, Gilberto Freyre, Otto Maria Carpeaux, José Lins do Rego, Manuel Bandeira.

Sua poesia então era intimista, questionadora do estar-no-mundo e do papel do poeta e da poesia num mundo convulsionado.

Nos anos 1960 e 1970, Thiago produz a mais lírica poesia política, que tem o seu zênite nos Estatutos do Homem. Ele denunciava a ditadura brasileira para o mundo e nos ensinava a doce canção da liberdade.

A partir dos anos 1980, sua poesia passa por outra mudança profunda: o poeta reflete sobre o meio ambiente e a ação nefasta do homem para o futuro da humanidade.

Às vésperas dos 90 anos, Thiago de Mello nos doa um livro – Acerto de contas – que é muito mais que o legado de um poeta tocado pelo gênio: trata-se do inventário de uma vida, onde todos os temas anteriores retornam com força e luz, dando ênfase à palavra mais cara ao poeta, que paira por toda a sua obra: esperança.

Agora, no aniversário de 94 anos do poeta, a Editora Valer nos presenteia com três títulos que estavam guardados nos escaninhos da memória.

Notícia da visitação que fiz no verão de 1953 ao rio Amazonas e seus barrancos: relato em prosa poética de uma viagem ao interior do Amazonas, entremeado de causos contados pelos moradores visitados.

Horóscopo para os que estão vivos: um poema engajado-surrealista, formado por outros poemas, um para cada signo – para ser lido ouvindo “um concerto de Bach, de preferência para fagote ou fuzil”.

Mormaço na floresta: antes da ecologia virar notícia corrente, Thiago, recém-chegado do exílio a que o submetera a ditadura, surpreende seus leitores com poemas da temática nova, tão radical e combatente quanto a anterior.

Imenso, em sua ternura vestida de branco, o poeta passeia por entre a bruma da memória e não tropeça, e não vacila, porque esse é o caminho que ele trilha, com seu andar cambaio de caboclo suburucu, desde sempre.

Manaus, cheia de 2020.

Teve poemas musicados por Pixinguinha, Ary Barroso, Monsueto, Manduka e Nilson Chaves, entre outros. Fixa-se no município de Barreirinha, Amazonas, onde até hoje se dedica à poesia, envolvendo-se com as comunidades ribeirinhas e com questões ligadas à preservação ecológica da Região Amazônica.
Ganhou três prêmios “Jabuti” por suas obras.
 
“Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares, mas há ainda um fator circunstancial a considerar: desde que retornou do exílio, em 1978, voltou a viver na distante Barreirinha, pequena vila de 5 mil habitantes encravada no Baixo Amazonas, em pleno coração da floresta. Quando volta do sul do País, depois de voar até Manaus e de lá num pequeno avião até Parintins, o poeta ainda é obrigado a enfrentar uma longa viagem de barco, de mais de cinco horas, até chegar em casa.”
 
José Castelo, em artigo publicado no Estado de São Paulo

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