ColunistasPsicóloga Isabela Corrêa

O preço da negligência: saúde mental em risco

Uma boa oportunidade para discutir vários temas é o caso da Fernanda Kanner, mãe de Nina, uma adolescente de 14 anos, que somava cerca de dois milhões de seguidores em suas contas do Tik-Tok e Instagram até sua mãe decidir apagá-las.

Em entrevista à revista Crescer ela relatou que sua filha havia começado sua participação nas redes sociais compartilhando sobre um voluntariado em institutos de resgate a animais do qual fazia parte. Gradualmente Nina passou a compartilhar conteúdos cada vez mais fúteis, segundo a mãe: dancinhas robóticas, “caras e bocas” e postagens com conteúdos vazios.

Eis sua postagem, respondendo aos fãs que questionavam a ausência da filha:

“Turminha teen, eu vou escrever aqui porque recebi muitos directs de seguidores da Nina querendo saber o que aconteceu por ela ter sumido. Decidi apagar a conta do Tik-Tok e do Instagram dela. Chata, eu sei, mas nossa função como mãe não é ser amiguinha de vocês e isso vocês só vão entender em retrospectiva. Papo de tia.

O carinho que vocês têm por ela é a coisa mais fofa mas eu não acho saudável nem para um adulto e muito menos para uma adolescente basear referências de autoconhecimento em feedback virtual. Isso é ilusão e ilusão mete uma neblina danada na estrada do se encontrar. Entre suas mídias eram quase 2 milhões de seguidores, dezenas de fã clubes, tudo muito doce mas também prejudicial para qualquer adolescente em processo de descoberta e busca pela individualidade.

Eu não quero que ela cresça acreditando que é esse personagem. Não quero ela divulgando roupas inflamáveis de poliéster made in China. Não quero minha filha brilhante se prestando a dancinhas diárias como um babuíno treinado. Acho divertido… e mega insuficiente. Triste geração em que isso justifica fama. Li outro dia que a gente tem que voltar a ter vergonha de ser burro e é bem por aí. Saudade de quando precisava ter talento em alguma coisa para se destacar. Nascemos com vários dons que nos fazem únicos mas quando a gente copy paste a manada eles se diluem no processo e a gente cresce sendo só mais um na multidão.

Não quero que ela se emocione com biscoitos (assim que fala?) e elogios. Nem que se abale com críticas de quem não conhece. Opiniões são só reflexos de quem está oferecendo e não de quem recebe. Você me acha linda pq você é linda ou está feliz. Você me acha feia pq você é feia ou teve um dia ruim. Eu não tenho nada a ver com isso.

A fã número um dela sou eu e ela continuará dando as caras por aqui, se quiser. Quando ela tiver conteúdo interessante para dividir ela pode voltar a ter conta.

Conforme os planos, ela vai pra Suíça junto com big bro no segundo semestre continuar os estudos por lá. Pular de para-quedas, estudar biologia na floresta, salvar umas vacas nos Alpes. A vida só presta quando se é feliz offline primeiro.

 Bjs da tia Fê

Todos nós já ouvimos falar sobre o quanto o envolvimento excessivo com tecnologia (smartphones, tablets, computadores, televisão) e redes sociais (Facebook, Instagram, TikTok, etc) pode nos fazer mal. Especialistas de diversas áreas da saúde (psicólogos, pediatras, pedagogos, médicos, neurologistas, psiquiatras) já vêm, há mais de uma década, nos trazendo abundante informação sobre o efeito das “telas” em nossas vidas. Apesar da grande revolução que possibilitam em termos de acesso à informação, conectividade, etc., elas podem interferir na forma de nos relacionarmos, com efeitos nocivos à saúde mental, autoestima, compreensão de realidade, chegando inclusive a interferir no funcionamento do próprio cérebro quando usadas de forma desmedida.

Com relação a crianças e adolescentes, as pesquisas científicas mostram que o excesso de tecnologia pode levar a dificuldades de conectar-se às outras pessoas, em socializar, dificuldades escolares, transtornos do sono e de alimentação, aumento da ansiedade, sedentarismo, maior lentidão na aquisição da linguagem e desenvolvimento do raciocínio, entre outros efeitos.

Escolho ressaltar que, na minha perspectiva, um dos efeitos mais nocivos (tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos), é a passividade de pensamento que elas induzem. A informação chega em montantes enormes e com muita velocidade, e em geral, absorve-se tais conteúdos de forma passiva e inconsciente. Isso significa que somos afetados por tudo que nos chega, porém em grande parte absorvemos tais conteúdos sem reflexão, instaurando em nossa subjetividade valores falsos, tendências consumistas, parâmetros equivocados de êxito e sucesso, entre tantos outros efeitos. Isso tudo traz o risco real dos nossos jovens, crianças e adolescentes jamais desenvolverem a autonomia para pensar por si, refletir, decidir e escolher, pois como toda a informação já chega pronta, não há espaço para que o indivíduo crie o seu próprio sistema de valores e compreensão das coisas.

Já vi especialistas proporem a seguinte comparação, em se tratando de crianças e adolescentes serem deixados sem controle algum com relação ao uso de redes sociais: “Você deixaria seu filho com livre acesso à cocaína? Se a sua resposta é não, então compreenda que é isso que você faz quando deixa ele o dia todo utilizando as redes sociais.”

Em 2016 o periódico Psychological Reports divulgou um resultado de pesquisas afirmando que o efeito do Facebook no cérebro é parecido com o da cocaína. Altamente adictivo. “A mídia social tem sido descrita como mais viciante do que cigarros e álcool, e agora está tão arraigada na vida dos jovens que não é mais possível ignorá-la”, afirma Shirley Cramer, diretora-executiva da instituição de saúde pública do Reino Unido. Hoje chamamos de dependência digital este uso abusivo de tecnologias.

Já está claro que as redes sociais foram projetadas para estimular um comportamento compulsivo. E todos nós sabemos o quanto a estratégia funcionou: de repente vemos que quase uma, duas horas se passaram enquanto rolávamos o feed do Facebook ou Instagram.

Mas o que acontece com os pais que veem isso tudo acontecer, criticam o comportamento dos filhos, discordam do uso excessivo, mas são incapazes de efetivamente dar limites? Algumas hipóteses me ocorrem.

Uma delas, bastante simples, é que muitos destes pais também estão viciados. Naturalizaram a tela. Não é incomum acompanharmos famílias onde o bebê ou a criança só se alimenta com uma tela à sua frente, assim como seus pais. Com relação à adolescência, dizem: “adolescente hoje em dia é assim mesmo”, conformando-se com sua impotência perante o comportamento dos filhos.

Outra possibilidade é que na adolescência ocorre uma transformação gigantesca na grande maioria das famílias: naturalmente os filhos se distanciam dos pais, gerando um efeito bastante perturbador para todos. De uma hora para outra aquele serzinho que te abraçava e sorria já não quer saber de você. Parece que esse abismo que se cria frequentemente entre pais e filhos acaba por deixar mais difícil que os pais consigam dar limites e sustentar sua decisão ao longo do tempo.

Além disso, por estarem ausentes de casa por tanto tempo por conta do trabalho, torna-se cansativo para os pais “desgastarem” a relação ainda mais sendo “chatos”. Preferem ser “legais” com os filhos, deixando-os fazer o que querem – uma espécie de compensação à culpa inconsciente que sentem.

Sustentar uma decisão como a que Fernanda tomou sem se abalar, compreendendo que é tarefa dos pais educar seus filhos para o mundo, exige tanto entendimento quanto segurança e maturidade.

Entendimento para não se confundir, compreendendo que a imposição de limites é estruturante, traz segurança aos filhos e prepara as crianças e adolescentes para lidar com as dificuldades futuras que lhes aguardam na vida. Segurança de que a relação estabelecida mãe-filho(a), ou pai-filho(a) tem força para superar esse momento de frustração, e assim não ceder perante as insistências do filho. Pais ou mães inseguros e/ou carentes têm dificuldades em suportar tais momentos e cedem perante seus caprichos. Cedem por medo de perder o amor deles, e acabam por perder o seu respeito.

Maturidade para compreender a cultura que vivemos e seus perigos, e assim tomar medidas de forma a proteger a saúde mental e autoestima dos nossos pequenos. Os dados atuais são claros: segundo uma pesquisa feita no Reino Unido, nos últimos 25 anos as taxas de ansiedade e sintomas de depressão entre os jovens apresentaram aumento de 70%. Este dado deveria alarmar o suficiente a todos nós ao ponto de fazermos o esforço de buscar informação qualificada para compreender quais as causas e como evitá-las.

Segundo a Royal Society for Public Health, da Inglaterra, “pesquisas sugerem que os jovens usuários frequentes de mídia social gastam mais de duas horas por dia usando redes sociais como Facebook, Twitter ou Instagram e irão, provavelmente, relatar problemas de saúde mental, incluindo sofrimento psicológico. Esse tipo de sentimento surge, por exemplo, quando se vê amigos constantemente em férias ou curtindo em festas, o que dá a sensação de que estão perdendo algo.”

Se é difícil para os adultos compreenderem a dinâmica das redes sociais, onde “na vitrine” todos estão bem, felizes e curtindo a vida, e na vida real são pessoas normais, lidando com dificuldades, sofrimentos, conquistas, alegrias e frustrações comuns a todos nós, imagine para uma criança ou adolescente que ainda está formando sua própria visão de mundo. Árdua tarefa de discernimento a ser feita, dificultada pelo contato com esta vitrine falsa da realidade sendo absorvida por tanto tempo, a cada dia.

No caso citado, Fernanda relatou que após deletar a conta da filha, ela se isolou em seu quarto por dois dias, ficou mais três dias meio “deprê”, e depois voltou ao normal. A mãe entende que este estado deprimido ocorreu não apenas pelo limite imposto à Nina e sua frustração, mas também devido ao efeito da abstinência de dopamina. De fato, hoje já sabemos que um dos fatores fisiológicos que leva ao vício em redes sociais é que o hormônio do prazer, a dopamina, é liberado ao adquirir “likes”, comentários e etc. Quando o uso das redes é limitado ou cortado, é de se esperar que estes estados surjam, relacionados à ausência dos estímulos anteriormente obtidos através das “curtidas”.

A parte bacana de saber da “rápida recuperação” de Nina é que talvez este caso possa servir de inspiração para outros pais. Quem sabe todos possamos nos encorajar e ajudar nossos filhos a se relacionar de forma equilibrada com a tecnologia, largando este vício ainda tão negligenciado pela nossa sociedade, a dependência digital.

Este é um tema sério, que solicita mais atenção por parte de pais, educadores, profissionais de saúde e a sociedade em geral. Afinal, a saúde mental dos nossos jovens está em risco.

E você, caro leitor? O que pensa disso? Convido a todos a opinar e contribuir com a discussão.

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