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Requalificação do Sítio Roberto Burle Marx renova e amplia acesso do público à vida e obra do artista

O projeto, gerenciado pelo Intermuseus priorizou três frentes: arquitetônica, museológica e institucional

O projeto, gerenciado pelo Intermuseus priorizou três frentes: arquitetônica, museológica e institucional, com destaque para a difusão do legado do paisagista e a experiência de visitação;

Com 407 mil metros quadrados e uma coleção de mais de 3.500 espécies de plantas tropicais e subtropicais, o Sítio, situado na zona oeste do Rio de Janeiro, é candidato ao título de Patrimônio Mundial pela UNESCO. Decisão de comitê foi postergada em virtude da pandemia;

Com milhares de projetos  espalhados pelo mundo, Burle Marx concebeu paisagens de grande destaque no país, como os jardins do Complexo da Pampulha, em 1942; o jardim do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1954; o paisagismo do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes (Aterro do Flamengo), em 1961; os jardins e a grande tapeçaria do Salão de Banquetes do Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, em 1962; e o famoso traçado do “calçadão” de Copacabana, em 1970.

Burle Marx foi também artista plástico, pintor, escultor, designer de joias, figurinista, cenógrafo, ceramista e tapeceiro. Todas essas facetas do artista podem ser apreciadas na propriedade que foi para ele um grande laboratório de experimentações botânicas e artísticas, onde morou e produziu em seus últimos vinte anos de vida.

Os trabalhos para requalificação começaram em outubro de 2018 e são fruto de um projeto idealizado e realizado pelo Intermuseus, com apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio da Lei de Incentivo à Cultura e parceria com o Sítio Roberto Burle Marx/IPHAN.

REQUALIFICAÇÃO MUSEOLÓGICA

Toda a área de visitação do Sítio foi qualificada do ponto de vista museológico, incluindo um novo sistema de sinalização desde a chegada do visitante ao local, com a criação de um espaço receptivo que apresenta o artista e o Sítio em seu contexto histórico e o prepara para compreender Burle Marx em toda sua complexidade, considerando sua relevância no cenário internacional da arquitetura paisagística. Os recursos estendem-se aos jardins e aos vários ambientes de sua casa, sede da propriedade.

O novo percurso agora abrange o interior da residência, dando acesso aos diversos ambientes: a sala de jantar, a sala de visitas, a sala de música, onde fica o piano de cauda da mãe do artista, a sala das cerâmicas, que guarda boa parte da coleção de arte popular, o quarto de Burle Marx, o quarto de hóspedes e a cozinha. Para a experiência ficar ainda mais imersiva, o trajeto ganhou nova iluminação, recursos visuais e efeitos sonoros. Agora também é possível contemplar de perto quadros e fotos de família, assim como as coleções do paisagista, que inclue m arte cusquenha, pré-colombiana, sacra e popular brasileira.

Parte importante da requalificação também é o processo continuado de formação dos educadores, envolvendo especialistas em patrimônio e mediação cultural. Destaque também para atividades educativas de preparo e sedimentação de visitas.

Todo esse conteúdo, que apresenta o Sítio em suas características únicas, compõe o livro Sítio Roberto Burle Marx, mais uma entrega do projeto. A publicação, com 309 páginas, será distribuída gratuitamente a bibliotecas, museus e universidades. Um guia multimídia no formato de aplicativo, com roteiros em português, inglês e espanhol, em audiodescrição e em Libras, é mais uma das novidades do projeto. Os recursos de acessibilidade incluem, ainda, mapas e maquetes táteis e réplicas 3D de obras para manuseio.

ACERVO ONLINE E CATÁLOGO RAISONNÉE

O universo das obras de Burle Marx é composto por três grandes núcleos: o acervo do Sítio Roberto Burle Marx; a coleção do Instituto Burle Marx e um terceiro das obras de coleções públicas e privadas, dispersas pelo Brasil e exterior.

O Sítio, especificamente, conta com um acervo constituído por cerca de 1.700 peças de autoria de Burle Marx e passou por um minucioso trabalho de inventário, catalogação e registro fotográfico. O conjunto inclui pinturas, desenhos, gravuras, projetos paisagísticos, esculturas, painéis, lustres, peças em vidro e outras obras. Também nos temas é bastante diversificado, mas há uma predominância das composições abstratas em sua produção, reflexo do entrecruzamento de seus trabalhos no paisagismo e nas artes visuais.

No processo de requalificação, as obras foram digitalizadas em um banco de dados específico para registro, gestão, pesquisa e acesso público. Além de cumprir com o objetivo de divulgar e disseminar o conhecimento sobre o artista, o resultado deste trabalho possibilita uma gestão melhor desta coleção pela equipe de técnicos do Sítio, facilitando os processos de empréstimo para exposições e sua preservação propriamente dita.

Este trabalho foi estruturado também com vistas à contribuição para a constituição de um catálogo raisonnée do artista, projeto que poderá ter continuidade com a catalogação do acervo do Instituto Burle Marx. O Instituto Burle Marx (www.institutoburlemarx.org) é uma organização da sociedade civil que atua em projetos de parceria com algumas organizações como o Sítio Roberto Burle Marx e é responsável por um acervo de mais de 120 mil itens relativos à produção paisagística (desenhos, fotografias, plantas de projeto, croquis de estudo, maquetes, documentos, cartas e obras de arte) salva guardados por Haruyoshi Ono durante sua gestão do Escritório de Paisagismo Burle Marx. Assim como o Sítio, o Instituto Burle Marx tem o objetivo de reverberar o legado, garantido a preservação e disponibilização desta coleção por meio de seu inventário, catalogação e futura digitalização, possibilitando o uso dos conteúdos em iniciativas de educação, cultura e meio ambiente.

Com esta frente do projeto de Requalificação, cumpre-se o propósito de reunir a memória e obra desse artista múltiplo, dando a ele o seu merecido reconhecimento na história da arte e no paisagismo mundial. O banco de dados pode ser consultado em: www.sitiorobertoburlemarx.org.br.

PROJETOS ARQUITETÔNICOS 

As atividades da requalificação voltadas a aspectos estruturais do Sítio compreenderam a elaboração de diversos projetos arquitetônicos, iniciando por um Plano Diretor destinado a organizar as intervenções futuras no espaço, de forma coerente com os conceitos de sua nova musealização e do seu planejamento estratégico.

Foi realizado um Plano Diretor e um detalhado estudo arquitetônico, que resguarda sua vocação como local de intercâmbio de valores humanos e de representação do pioneirismo de Burle Marx na preservação ambiental. A partir dele, foram elaborados projetos de reforma e construção, incluindo um novo prédio, que contemplará espaços específicos para o desenvolvimento de pesquisa botânica, com herbário e laboratórios, salas de trabalho, auditório equipado para cursos e palestras e outros ambientes de suporte às atividades cotidianas do Sítio, como refeitório, vestiários e almoxarifados.

Foram também projetados uma nova guarita e um Centro de Interpretação, com espaço maior para recepção de visitantes, além da reforma do Edifício da Administração, que ganhará nova área de biblioteca, salas de trabalho e reunião, espaço para o setor educativo, sala multiuso, loja e café. Com os projetos executivos e complementares que estão finalizados, o Sítio poderá planejar a execução de obras em fases futuras.

ARTICULAÇÃO SOCIAL, COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E TURISMO

A fim de identificar potencialidades e promover maiores vínculos do Sítio com a população de Barra de Guaratiba, foi realizada uma pesquisa territorial para engajamento da comunidade. Também foi feito levantamento quantitativo e qualitativo com a população do entorno para subsidiar o Sítio na criação de programas educativos e voltados à comunidade. A ação considerou a percepção dos funcionários – muitos formados pelo próprio Burle Marx.

Foi criado, por exemplo, um documento de identificação que concede aos moradores do entorno entrada gratuita. “Queremos que a equipe e toda a comunidade se apropriem desse espaço, divulguem e participem ativamente das atividades”, conta Claudia Storino, diretora do Sítio Roberto Burle Marx. As visitas mediadas foram redesenhadas, porém, em virtude, da pandemia, a data de retomada ainda está sendo avaliada.

A ideia é que as novas atrações e melhorias tenham impacto no turismo local, que sustenta dois polos de desenvolvimento do município: o gastronômico e o de plantas. “O próprio Burle Marx tinha uma relação forte com a comunidade do entorno. Um exemplo é o polo de plantas, que se originou de seu trabalho na região”, comenta Andréa Bueno Buoro, diretora do Intermuseus, organização responsável pela concepção e gestão do projeto de requalificação.

O bairro onde está localizada a propriedade, a Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, é um reduto gastronômico e ecológico, a 50 km do centro da cidade. A região reúne praias selvagens (como as praias dos Búzios, das Conchas, do Perigoso, do Meio, Funda e do Inferno), trilhas (como a da Pedra do Telégrafo ou da Pedra da Tartaruga), mirantes, locais de esportes ao ar livre (rapel e stand up paddle, por exemplo), além de restaurantes, opções de hospedagem e um antigo alambique da cidade.

PATRIMÔNIO CULTURAL DA HUMANIDADE

O Sítio Roberto Burle Marx é tombado como patrimônio cultural brasileiro nas esferas municipal, estadual e federal. É um forte candidato ao título de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, decisão que será anunciada na 44ª reunião do Comitê do Patrimônio Mundial, ainda sem data para ocorrer devido à pandemia. Seu dossiê de candidatura, desenvolvido pelo Iphan, defende o valor universal excepcional do imóvel, na perspectiva de sua utilização como laboratório botânico e paisagístico, essencial para a criação do conceito de jardim tropical moderno.

O projeto de requalificação contribuiu fortemente com a candidatura do Sítio ao título de patrimônio mundial, colaborando com o processo continuado de qualificação de suas atividades e de sua sustentabilidade. Uma especialista da UNESCO visitou a propriedade, conferiu algumas das frentes em andamento e tomou conhecimento dos ganhos sociais, institucionais, arquitetônicos e museológicos conquistados com as intervenções.

A possível declaração como patrimônio mundial representa o reconhecimento da importância do Sítio Roberto Burle Marx para a humanidade.

HISTÓRIA

Originalmente chamado Santo Antônio da Bica, por conta de uma fonte d’água ali localizada e que abastecia a população local, o imóvel foi comprado em 1949 por Roberto e seu irmão Guilherme Siegfried, com a finalidade de abrigar sua coleção botânica, testar novas associações e cultivar mudas. A propriedade foi gradualmente se transformando; a Capela de Santo Antônio da Bica foi restaurada na década de 1970, com o apoio dos arquitetos Lúcio Costa e Carlos Leão; foi novamente restaurada em 2019-20, pelo Sítio Roberto Burle Marx/Iphan.

Burle Marx viveu no Sítio entre 1973 e 1994, reunindo exemplares de mais de 3.500 espécies de plantas tropicais e subtropicais de diversas partes do mundo, algumas em risco de extinção. O Sítio dispõe de exemplares das 34 espécies que possuem uma relação direta com Burle Marx: duas delas descritas diretamente pelo paisagista, 16 nomeadas em homenagem a ele e outras 16 que foram descritas utilizando materiais coletados nas expedições realizadas por ele.

Uma das oito edificações do Sítio, a Capela de Santo Antônio da Bica foi erguida antes de 1681, por ordem do capitão-mor Belchior da Fonseca Dórea; foi saqueada no dia 11 de setembro de 1710, assim como a fazenda, por corsários franceses. Os invasores entraram no Rio de Janeiro pela Barra de Guaratiba, sob o comando de Jean François Duclerc, e conseguiram chegar até o centro da cidade, onde foram vencidos. Conforme relato do Monsenhor José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo, a Capela achava-se arruinada em 1743 e “estando só com alicerces, foi reedificada pelo falecido Cap. Francisco de Macedo Freire no ano de 1791”. É nessa localidade histórica que se celebra, no dia 13 de junho, a festa de Santo Antônio, padroeiro da comunidade de Barra de Guaratiba, além de missas dominicais, casamentos e batizados.

Essas são apenas algumas das memórias da propriedade, que são valorizadas com a requalificação.

 

SÍTIO ROBERTO BURLE MARX:    

Estrada Roberto Burle Marx, No. 2019 – Barra de Guaratiba
CEP: 23020-255 – Rio de Janeiro/RJ
Tel.: (21) 2410.1412
E-mail: visitas.srbm@iphan.gov.br

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